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22/07/2010
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A Velocidade da Sombra
18/08/2009
I
Jesse Owens era o homem mais belo do mundo em 1936. Ele tinha 23 anos e era negro. Owens venceu os 100 e os 200 metros nas Olimpíadas de Berlim. Jesse Owens era mais rápido e belo que os canhões de Hitler, que por 10 segundos calaram. No entanto Roosevelt nunca felicitou Owens pelo feito, algo que o magoou muito mais do que as ofensas do Führer. Jesse Owens além de correr como uma pantera escreveu uma biografia. Ele era uma sombra.
II
Em 1694, Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira de Melo comandam o ataque final contra a Cerca do Macaco, principal mocambo de Palmares, onde Zumbi nasceu. Após quase 100 anos de resistência, o quilombo sucumbiu ao exército português, e embora ferido, Zumbi consegue fugir correndo. Um ano depois ele é encontrado e degolado, aos 40 anos. Zumbi quer dizer fantasma.
III
Como um fantasma, Stitt sobe as escadas do sombrio clube de jazz de Kansas City. E lá estava Ele. Todo fresco e com um charme alagadiço: Você é Charlie Parker? Sim, sou Charles Parker, sorrindo com seu dente de ouro. Bem, eu sou Sonny Stitt. Vamos descer e tocar uma coisa então meu senhor – retrucou Parker. Foi só o que aconteceu. E depois de tocar por horas, Ele comentou: Bem, seu som é muito parecido com o meu… Bem, seu som se parece muito com o meu também, retrucou Stitt.
Kenny Clarke, baterista e um dos inventores do bebop, disse que se não tivesse existido um Bird, teria existido um Sonny Stitt. No entanto Charlie fora um fantasma na vida de Stitt, tendo este seu reconhecimento como um “mero” imitador do grande Bird, o maior saxofonista e para muitos o maior músico da história do Jazz, morto apenas com 35 anos.
IV
Trinta e cinco anos viveu Bradley Rone, um boxeador negro medíocre. Ele morreu no ringue, lutando para conseguir dinheiro para o funeral de sua mãe, que não assistia suas lutas. Bradley Rone foi homenageado pelo então senador branco do Arizona John McCain, que concorreu nas útimas eleições à presidência dos EUA com o negro Barack Obama.
V
Obama tornou-se o primeiro negro a ocupar a Casa Branca. Ele tem nome africano e sangue mulçumano.
VI
Tomo o norte seco da noite que a mim incrimina/ Que é caminho em beco pra dentro das suas retinas/ É o PM de corte reco que algema meus carinhos de mãos femininas/ E vigia os pretos insistentes enfileirados na esquina/ Da minha poesia irresponsavelmente assassina.
VII
A Policia no Brasil foi criada para conter os escravos negros. A Policia no Brasil continua especializada em conter os negros, escravos. E eu que escrevo, travo: uma luta de boxe contra um Phd negro ao mesmo tempo que tento inutilmente reduzir meus escritos a instruções de fuga aos pretos inocentes e analfabetos, presos em Presidente Bernardes.
VIII
Eu não tenho problemas com a Polícia. Sou só revistado pelos burocratas. A policia que me espreita, não quer meu dinheiro ou me dar coronhadas, eles querem minha alma. Enquanto o Mercado vende barato a sua velocidade de agilização dos processos públicos, eu só publico minha poesia se virar funcionário público. Enquanto isso continuo a margem só noticiando meus atrasos. Gostaria de me equilibrar como o Petit entre as torres gêmeas num cabo de aço que separa o sublime, da moral estúpida e suicidante que escorre com o sangue nos escombros do World Trade Center. Gostaria de correr 100 metros em 9 segundos e meio e me calar. Está aqui minha língua. Estou esperando o negro apontar a 765 na janela do meu carro popular com seguro vencido e pedir minha língua, mas ele só quer 100 reais. Eu já fiz propaganda que não preciso mais dela para ser forte. Não preciso mais dela para ser belo. Tenho que vendê-la logo antes que minhas articulações doam enquanto corro debaixo da chuva pra alcançar meu filho.
IX
Estou mais perto dos que latem ou dos que falam latim? Não sei. Sei que cansei de gritar. Devo morder?
X
Para o sociólogo Roberto Da Matta o futebol é um esporte que nos une a terra. O que era antes uma corrida bárbara e violenta de homens chutando a cabeça dos seus inimigos, é hoje um esporte que civilizou a parte mais bestial do nosso corpo: os pés. Não sei o porquê mas tenho muito sonhos com Garrincha, mesmo nunca tendo o visto jogar. Eu sonho com suas pernas tortas e seus dribles desconcertantes, uma vez ou outra um gol. Para Drummond, “se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios”. Se há algum poeta que eu gostaria de ser, talvez fosse Garrincha e não Drummond.
Embora eu tenha só 26 anos, ontem pude assistir a um feito extraordinário do esporte. 73 anos depois de Owens, com a mesma idade que ele e também em Berlim, um jamaicano negro chamado Usain Bolt, bateu em 11 centésimos seu próprio recorde mundial dos 100 metros rasos, deixando muito para trás um afro-americano, que ficou com a prata. Enquanto muitos correm pra sobreviver, pra matar ou pra morrer; mesmo ganhando um bom dinheiro com isso, vi que Bolt corre por correr; porém não se contenta somente em correr mais rápido que todos, ele corre contra ele mesmo.
Eu queria ser ele. Fim.
À Roberto Piva
24/07/2009
Voam os pelicanos carregando no papo o gosto de peixe morto dos meus azedumes poéticos.
Apodero-me da mão do peixeiro para escrever essa sanguinolência marítima e insalubre, enquanto a mão do pescador ocupa-se em realizar poemas atlânticos. Não tenho sentimento atlântico do mundo. Estou afogado numa poça, com os pés mergulhados na lama, com caranguejinhos saindo pela minha boca e ouvidos, enquanto que minhas mãos ocupam-se do ofício de escrever tubulações intabuláveis onde escorre a mesma merda ultrapassada que ninguém ainda quis engolir.
Mais que os peixes, quero os girinos. Contra a limpidez dos lagos, a favor das águas turvas, contra os mares, a favor das poças rasas. Quero o gotejar continuo do que se esforça pra fluir no meio de sangue e pedra..
O sequestrador
03/06/2009
Quem escreve, se atreve. Trancado dentro do porta mala do Uno. Escrevo meu réquiem em rap oportuno. Quem grita agora sou eu mesmo, o Bruno. E hoje o atropelamento não é na rima, é no Passeio Noturno. Mas quem guia agora é você. Te dei a caneta, então escreve pra eu ver. Escreve: pra eu viver.
Aos que não se escrevem no mundo
24/05/2009

Norman Rockwell
Não me importa muito ser lido
Se são tantos os que passam que nem sabem ler
Quero a leitura dos esquecidos
Não dos poucos que exercem a profissão de esquecer
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Não me venha dizer o que devo escrever
Se escrevo sobre a solidão
de quem não se escreve no mundo
E sobre quem escreve a fundo
Sobre o mundo que só de dentro se vê
Las migajas de mi libertad
24/05/2009
Foto de Bruno Villela
Por las noches la soledad desespera
Yo me voy solo por las calles con procacidad
A olvidar que la poderosa fera
Come las migajas que dejo de mi libertad
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La única cosa que tengo para correr
Las migajas de mi libertar de la propia fera
Que dejo para trás para no me perder
Por las noches en que la soledad desespera
Os Gêmeos
….Enquanto o Tietê nem parece mexer com o vento, o trânsito dos carros palavras, na marginal permanece lento. Se é doce morrer no mar; em São Paulo sem mar a morte é salgada, ela é vida suada a passar correndo; o rio se confunde com a rua, cada um anda na sua, e o fluxo contra nós a voar pra dentro. A tragédia é um encontrão acidental do trem da realidade com o do consentimento. E só vive quem rima com o outro sem mágoa ou talento. E pra isso mais do que de água, é de palavras que vivemos sedentos.
O Desabamento do Samba
24/05/2009
Eu conheço o samba no assombro/ Na minuciosidade original dos seus escombros/ Na serpente da sagacidade sobre os ombros/ Serpenteia a perna bamba na saga pela cidade cheia de calombos/ Improvisando que eu zombo/ Da tábua que não fez mal, de degrau, no lugar do rombo/ Imprevisível a mesma que nos serviu de tombo/ Das escadarias que ela sobe balançando os lombos…
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Feliiiiiiiiiiz é ela!
Feita de ventania
E eu que sou feito de favela
Favela que por ti desabaria!
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Ando todo dia só na minha companhia/ A serpente do caminho me envenena à serventia/ Minha parede e meu esqueleto são de alvenaria/ E minhas veias entupidas são escadarias frias/Quem me daria mais do que um dia? Nessa chuva que não mais estia/ Pelas escadas escorre sangue envenenado, não mosca do meu lado, pobre os meus olhos que desabam alagados/ E os meus pedaços pra santo todo lado, arrastado, endurecem esse samba liquidificado/
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Feliiiiiiiiiiiiz é ela!
Feita de ventania
E eu que sou feito de favela
Favela que por ti desabaria!
Ilustração de Marcílio Duarte, 29 anos, sobrevivente, pai, músico, ator e designer.



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